
Quando se foi, porque quis,
a menina não chorou.
Quando voltou o que se foi,
a menina não sorriu.
Quando engasgou o que não foi dito,
o coração não resistiu
Aurora mulher que voltou,
não é mais a menina que partiu.
-E foi, não foi?
-Não sei, Aurora - Disse eu.
E era para ser o fim da discussão. Quanta teima essa menina, que só pensa com o coração!
-Mas eu vi!!! Eu juro que vi com os meus próprios olhos!
-Teus olhos choram Aurora! Eles não enxergam com clareza nem um ponto negro na escuridão.
Ela cruzou os braços e me encarou magoada, já com os olhos cheios de lágrimas:
-Eu sei que foi!!! Não mente pra mim, você e sua razão incondicional, que só vêem o que é conveniente. Eu sei o que os meus olhos viram, e não preciso que você venha me poluir com suas idéias prepotentes.
E eu então desejei, mais uma vez, que ela se calasse. A força da palavra de Aurora mexia comigo muito profundamente, por mais que eu tentasse ignorar a água do fundo do poço de mim mesma. Coisas que estão muito bem escondidas, na minha opinião, não foram feitas para serem encontradas. Mas Aurora sempre dá um jeito de descer até lá embaixo, e tirar de dentro do meu poço coisas que ficaram inacabadas.
-Você vai admitir ou não?! - Aurora de novo.
Eu fiquei olhando pras estrelas fixadas no teto do meu quarto, me perguntando se a menina matrelinha, algum dia, iria embora. Mas de repente me imagino sozinha, e não vejo minha vida sem o brilho da Aurora.
-Não Aurora, não vou!! Eu estou cansada... será que você poderia dormir um pouco agora, e me deixar pensar?!
-Pensar, pensar, pensar... Você não pensa certo, porque usa os instrumentos errados. E na ânsia de deixar de amar como criança, perdeu a inocência que te permitia ver o mundo mais colorido!!! - Ela cruzou os braços, com ares indignados, e se escondeu em algum lugar aqui dentro.
Eu juntei aquelas últimas palavras da Aurora Catarina, e joguei elas dentro do poço. Um dia, de qualquer forma, a menina vai buscar tudo aquilo, pra me fazer entender que ela manda no que penso, no que sinto, no que falo, no que cheiro, no que bebo, no que como, no que sonho... Mas enquanto posso, prefiro ignorar o que ela diz com tanta convicção, e fingir que não sei que Aurora sempre tem razão.
Gosto da Aurora,
porque ela finge que vai embora,
me perdoa, volta,
abre um sorriso e diz:
-oi?!

"Coisas que estão muito bem escondidas não foram feitas para serem encontradas." Bah, que bonito, Lulu.
ResponderExcluiroi!
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