
Há pessoas que acreditam que a felicidade está alta demais para o alcance dos braços:
A maioria delas não sabe que têm asas.
Outra parcela sabe, mas têm medo da liberdade.
Há também os que levantam vôo sem saber se orientar.
Mas aqueles que sabem voar de verdade,
fazem do vôo a própria felicidade.
Na tarde que sucedeu um dos sumiços de Aurora, ela voltou para casa com um filhote de sabiá nas mãos. Disse que encontrou o ninho todo destruído e o bichinho machucado, caído no chão. Onde? Só Deus sabe por onde Aurora andava, perdida em pensamentos. Mas não importa, pois eu sabia que ela voltaria me trazendo algum tipo de preocupação. Hoje Aurora trouxe um pássaro ferido, e amanhã talvez, ela me traga um leão.
O pequeno animal de penugem desbotada, assustado e incapaz de reagir, se encolhia na palma da mão de Aurora. Pingamos um pouco de água no bico e tentamos alimentá-lo com algum tipo de grão moído, mas não tivemos êxito. O jeito era limpar a gaiola do velho galpão, e encontrar minhocas para alimentar o pobre do bixinho, que aparentemente agora, sob custódia de Aurora, se chamava Toninho.
Duas horas mais tarde, segurando um pote cheio de pedacinhos de iscas, Aurora conseguiu fazer o bixinho comer um bocado. Colocamos a gaiola próxima ao fogão à lenha com esperança de manter o animal aquecido, e esperamos para ver se Toninho reagia. Aurora Catarina não saía de perto do pobre passarinho, e cada vez que ele gemia de dor, a menina também sofria.
Durante duas semanas Toninho foi o centro das atenções de Aurora. Por nada, à não ser banho e sono, ela saía de perto da gaiola. E de tanto amor que o animalzinho recebeu naquelas semanas, já ouvíamos o piado de Toninho, fraquinho e desafinado, entoar canções de passarinho. Aurora, algumas vezes, tinha vontade de se enfiar dentro da gaiola com o sabiá para cantar melodias passarinhais. Mas mesmo miúda que era, Aurora Catarina não caberia na gaiola, porque tinha o coração grande demais.
Não muito mais tarde, começada a primavera, Toninho já estava pronto para voar. Mas Aurora Catarina, apaixonada que tava pelo canto do sabiá, achava que não poderia viver mais sem ouvir ele cantar. E dia após dia, com a primavera mais florida, Toninho começou a ouvir outros pássaros cantando livremente do lado de fora. E foi ficando cada vez mais triste, e não cantava mais o canto de Aurora.
Egoísta como só ela, Aurora fechou portas e janelas para esconder Toninho do mundo lá fora. A menina, que queria guardar só para si o canto do sabiá, acabou sufocando o amor que o pássaro sentia por ela. E por isso ele parou de comer e beber o que a menina oferecia. E o piado do passarinho agora era baixinho e acanhado. E cada vez que o Sol batia na gaiola, o pássaro cantarolava tristemente, um canto desafinado.
Então Aurora percebeu que o amor precisa ser livre.
E na metade da Primavera, no primeiro dia de Sol depois uma semana chuvosa, Aurora abriu a porta da gaiola e ofereceu ao seu amor a liberdade que ele tanto almejava. Toninho ensaiou um vôo desajeitado, e começou a voar por entre os galhos do quintal. A menina, com os olhos úmidos, sentada do lado de fora, passou mais de uma hora observando o passarinho, até que o pequeno sabiá entoou o canto de Aurora, levantou um vôo alto e foi embora.
Ainda sentada do lado de fora a menina pensava. Eu sentei ao seu lado, sequei suas lágrimas e segurei Aurora no colo, até a Primavera acabar.
E no começo do Verão, em um daqueles dias que merecem sorrisos gratuitos, abrimos as janelas para deixar o Sol entrar. Junto com a luz, rápido como um raio, entrou pela janela o canto de um sabiá. Apoiado na grade estava Toninho, com um sorriso no bico, cantando melodias de amor para Aurora. E a menina sorriu até engolir as orelhas, abriu asas imaginárias de passarinho e deixou seu coração levantar um vôo de liberdade, ao lado de Toninho.
Mais vale voar pelo mundo com os pássaros
Do que ter um pássaro na mão,
encarcerado pelo egoísmo do coração.
- oi?!

MUITO LINDO.... SORRI ATÉ ENGOLIR AS ORELHAS DE LER!
ResponderExcluirABRAÇO!
Bárbara