quinta-feira, 14 de outubro de 2010

aviso prévio


Alma ferida
Estômago contorcido

Lágrimas que lavam o rosto

sumo de um coração espremido


Nós sempre sabemos. Não é loucura, eu e ela somos corpo e coração. Eu e ela somos a forma humana do sexto-sentido. Eu e Aurora sempre sabemos de antemão. Por que então caminhar naquele sentido? Por que não escolher outra direção?

Nesse minuto, indo de encontro à porta de entrada, com pernas trêmulas feito bambu, nós ouvimos a respiração curta uma da outra. Aurora chuta o meu estômago sem cessar, enquanto minhas palmas suam unidas numa dança de tensão. Meu coração palpita, e o som das vozes no lado de dentro soam como bombas de canhão. Olho pro céu e depois pro chão. O desenho da calçada me deixa tonta. Eu paro, respiro, dou um passo pra trás, dois... até que alguém segura meu braço e me diz pra continuar. Melhor do que fugir do medo, eu sei, é ter força pra enfrentar.


Eu e Aurora somos agora fraqueza que se abraça, que quer voltar pra casa, dormir de conchinha com o próprio estômago pra aliviar a dor que tanta agonia causa. Nós não somos mais escape uma da outra, porque as duas se renderam ao medo. Medo de dor sentida antes de doer, mas que não é desconhecida, porque já foi parte de nós mais de uma vez nessa vida.

Agora estamos aqui. Rosto seco, cara lavada, batom. Cabelo bonito, rímel, coragem no chão. Na porta, nós respiramos juntas o bafo morno que vem de dentro. As narinas ardem, os olhos fecham. Um passo a mais. As pálpebras trêmulas piscam mais três vezes no próximo milésimo de segundo. Ninguém. Um sorriso toma forma de pedra nos lábios, a testa franze. Olhamos pra esquerda, pra direita e pro chão. Finalmente soltamos a respiração. Então nos voltamos pro mesanino. O sorriso de pedra se quebra, e dentes afiados de tubarão mordem os lábios. Não somos capaz de alíviar uma dor com a outra. Um gosto amargo que sobe do estômago toma conta da boca. Aurora começa a soluçar. Eu ainda aqui, de pé, sem reagir ou me mover, desejando me esconder, abraçar as próprias pernas e morrer... morrer de tanto chorar.

Nós já sabíamos, porque a supresa então? Estar certa nunca pareceu tão errado. Mas sim, nós prestamos atenção à cada palavra dita no soar cruel daquele discurso despreparado. Nós somos ouvintes atentas, que dormem encolhidas pra aliviar a profundidade do machucado. Que não deixam escapar a chance de se preparar pra pisar num sentimento que precisa ser racionalizado.
Mas nós não sabemos racionalizar, nem corpo e nem coração. Nem menina Aurora, nem mulher Catarina e nem eu, que às vezes sou mulher e às vezes sou menina.

Um, dois... dez passos pra trás, longe das pessoas à frente. Nós precisamos ficar juntas e sozinhas. Nós damos meia volta, e sem soar uma palavra, saímos. A rua molhada pela chuva é segura. O ar pesado e úmido da cidade, tão morno. Nosso abraço se aperta mais forte. É preciso força pra ter coragem de fugir. É preciso força pra poupar o estômago das dores que não são inevitáveis. Segredo que acabamos de descobrir: Por mais que doa forte a escuridão da distância, ela é a cura mais eficáz. Errar é risco humano, não repetir o erro é aprender, e isso só faz quem é capaz.

Pra que chorar na floresta com os ursos

Se podemos sorrir no jardim com as borboletas?

-oi?

5 comments:

  1. Dor é inevitável, sofrimento é opcional. Já dizia, sei-lá-quem...

    Se não é a primeira vez que passa por isso, tu já sabes que sempre sai viva.

    Se chegou a hora, veste teu melhor sorriso e entra, na pose, no salto-alto sem medo, que se tu trupicar, eu te seguro e o lance vira piada, minha bruxa.

    Que saudade de ti! Que grande amiga tu é!
    Não vou rasgar ceda aqui, mas, olhando racionalmente, com olhar de "gato escaldado"... não tens motivo pra ter medo, afinal, tu é mto maior que teu medo.

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  2. "Se a cada Outono trocares as folhas,
    A cada inverno passarás trabalho.
    Então, nesse jogo da tua desfolha,
    Eu prefiro ser teu galho."

    Alguém muito especial me escreveu isso a um ano atrás...e eu acredito =)

    ;) escrever deixa o coração leve, não?

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  3. rasgar CEDA pq eu sou muito culta e escrevo tudo muito serto, claro

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  4. mas iço só acontese porque agente é amiga e escreve tudo serto...
    (ps: ja entendi que "agente" é separado, mas logo vamo tah junto de novo haha)

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