"Sou alguém que vai dormir satisfeita
Num dia de produção, compras, academia
ou limpeza de gavetas."
Eu adoro o lixo (devidamente separado). A Aurora Catarina não. Ela salva tudo. Compra artigo de segunda mão. O que não se usa, ou se passa adiante ou se joga fora. Eu adoro limpar as gavetas, mas sem a ajuda da Aurora. Se ela passa o olho em todo aquele lixo, alguma coisa ela coleta. E aquilo tudo se acumula para ser encontrado mais tarde. Artigo de natureza inútil, passa a vida sem ter utilidade.
Começando pelas malas, o espaço ocupado pelas coisas de alguém, por maior que seja, é limitado. As minhas malas que o digam. Quando as fiz da primeira vez, deixei todas as outras coisas (que supostamente veria um ano depois) no guarda-roupa lá de casa. Quando voltei pra casa (não definitivamente) mandei metade pra doação, e algumas pro lixo (sem condição). Aprendi a me desapegar. A deixar coisas no passado e não olhar. Aprendi que o material tem um tempo de vida, e que o ser humano também. Tempo curto demais pra se desperdiçar com o que ficou pra trás. As coisas tem o valor que agregamos a elas. E quanto mais nos apegamos às nossas quinquilharias materiais, mais precisamos delas.
O dinheiro então, como entra, escapa da nossa mão. Às vezes ganhamos uns trocados numa bobeira. Às vezes gastamos mais do que deveríamos numa coisa que não é necessária. Se a cabeca ficar martelando o que foi perdido, corre-se o risco de perder as oportunidades a frente. Aprendi com as minhas perdas, a não perder novamente. Não da mesma forma, ao menos. Eu sou campeã em perder dinheiro, principalmente em função da má fé alheia. Se eu fosse apegada no material, como certas pessoas, a coisa "taria" feia. Não ficaria rica, nem que vivesse mil anos. E isso nao faz parte dos meus planos.
Pessoas são um bom apego. E eu gosto de me apegar. Me apego ao convívio, ao comum, à conversa e ao familiar. Mas viajando, vivendo e trabalhando aprendi que, assim como se apega, precisamos aprender a desapegar. Não adianta viver de apego, se a situação não é favorável. Se apegar a uma amizade, é viável. Se apegar a uma condição é perda de tempo. É viver aprisionado nos próprios apegos. É se limitar. Acho que foi por isso que saí de casa. Aprendi a me desapegar de sonhos (dos que possívelmente se tornariam fustração), de (más) ideias, de conceitos (não de todos), de limites (dentro da lei) e de pessoas (claro que nem de todas me desapeguei).
Se isso serve de consolo aos apegados, tem um apego do qual Aurora não se desfaz. Ela acredita que o apego espiritual é que nos torna mais fortes, e nos permite viver em paz. Não há nada mais triste do que a alma que foi esquecida. Uma alma bem alimentada é o peso mais leve que alguém pode carregar na vida.
"Tudo o que você precisa pra viver
já está em você.
O resto, você pode fazer."
(ponto)
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