quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Previamente rascunhado.


"Um papel branco sem rabisco
Largado em qualquer lugar
Eh frente e verso do universo
na mao de quem sabe pensar."

O primeiro papel em branco que ganhei, antes mesmo de Aurora Catarina nascer, nem eu lembro como usei. Mas a partir das memorias que tenho guardadas, lembro bem o quanto eu adorava aquela folha de celulose. Nao importava se fosse oficio, desenho, sulfite ou pardo. Era como se eu pudesse desenhar os sonhos que sonhava acordada. Como se eu pudesse materializar o imaginado. Viajar a lugares distantes. O mais distante que eu desejava ir naquele tempo, era ao Castelo Encantado do Chapolim Colorado (eu jurava que ele morava na lua).

Minha caixa de lapis coloridos era minha ferramenta preferida. Mas eu nao sabia apontar. Ao inves de girar o lapis, eu sempre girava o apontador. Alem disso, desligada como era, eu acabava sempre perdendo metade dos meus lapis de cor. Mas isso nao me impediu de aprimorar meus tracos descordenados. O sonho que nasce no papel, foi feito para ser sonhado. E o papel em branco, precisa ser rabiscado.

Se o papel tivesse vida, qual seria sua funcao preferida??? Tem papel que vira dobradura, recorte e colagem de pre-escola. Pode ser tambem um cardapio, uma conta, uma prova de matematica ou um documento chato. Pode ser um artigo cientifico, uma carta de amor, um cheque ou um extrato. Pode enrrolar leite ou acender fogao a lenha. Pode ser rasgado ou queimado. Melhor se for reciclado. Acho que se eu fosse um papel e pudesse escolher, seria o rascunho de um poeta pirado. Carregaria toda a responsabilidade de um poema, e a inspiracao primaria do seu significado.

Chegando ao fim dessa reflexao, primeiramente rascunhada na ultima madrugada, concluo que nao tem word ou paint que substitua a funcao de um papel na vida de alguem. Quando agente cresce, o papel muda de forma e de significado. Ele acaba virando rascunho pra um documento digitalizado. Mas nao ha o que diminua a importancia de um sonho de infancia, que se materializa nos tracos coloridos rabiscados por uma crianca.

"Nas entrelinhas de um rascunho qualquer
O que nao foi gravado, e nao pode ser dito
Foi cuidadosamente escrito
Para jamais ser lido."

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