quinta-feira, 8 de abril de 2010

O caderno de Recordação


Páginas amareladas
Letra bonita
Histórias contadas
por gente esquisita.

Aurora entrou no quarto cansada naquele final de tarde, mas (quase) decidida a limpar o topo do armário; o santuário onde guardava os "trecos" arrecadados ao longo da vida. E ela não gostava de se desfazer de coisas, mas não existia espaço físico capaz de sustentar a quantidade de lembranças da adolescência . Provas concretas das mudanças que Aurora Catarina sofreu nesse período. A puberdade para muitos, é um teste de sobrevivência.

Ela foi tomar banho. Jantou e assitiu um episódio do seriado favorito. Voltou pro quarto. Começou um texto pro blog. Parou. Pegou um livro pouco interessante, leu duas páginas. Olhou para o teto. Pensou em pintar a parede de verde. Lembrou que precisa comprar um grampeador e ligar para o dentista. Deixou duas notinhas na escrivaninha. Pegou o celular. Começou a escrever uma mensagem. Desistiu. Olhou pro armário. A porta ainda estava lá, fechada. O peso dos livros estavam fazendo a estante da escrivaninha ceder. Ela precisava de espaço. O armário tinha espaço. Ela deixou o quarto. Voltou. Puxou uma cadeira, abriu a porta do armário e, enfim, começou.

Fotos, cartas, cartões, recibos, velhos cadernos, pastas, trabalhos de escola. Fantasias de Festa junina e Halloween. Porta-retratos antigos. E inesperadamente, no meio de papéis inúteis, dentro de uma caixa de velha documentação, Aurora encontrou a relíquia mais preciosa e esquecida da vida. Um velho e empoeirado caderno de recordação.

Era a febre da turma na época. Todo mundo tinha o seu. A capa era colorida, listrada. Na primeira página, enfeites com adesivos do Piu-piu. Centralizado, identificou sua caligrafia torta e desajeitada, escrita com caneta de glítter vermelha, dentro de um coração, cujo epitáfio (sim, eu quiz dizer isso) dizia "Meu caderno de Recordação".

E na página dois, um índice. Nomes já esquecidos, de colegas que nem lembrava mais do rosto. Cada um assinava de um jeito, de uma cor. Nenhum deles, certamente, lembra daquele caderno, ou do que escreveu. A menina mesma escreveu em tantos, quando ainda aprendia a escrever. Ela sorriu ao ler um nome. Abriu na página e começou a ler.

Era a mensagem de uma de suas professoras favoritas. Quatro linhas sucintas. Dois adesivos e um fundo de lápis de cor. A mensagem falava de uma tela vazia, que ela, futuramente, pintaria. Ficou perdida em pensamentos, contemplando a tela que pintou. O que quer que ela tenha imaginado, pela cara de Aurora, ela gostou.

Ela abriu a página quinze e encontrou uma mensagem com um desenho de um coração no centro. Escrita de caneta preta. Letra bonita. A mensagem era carinhosa, longa e sem um erro de português. O autor foi o primeiro amor de escola da Aurora. Tempo de beijinhos no rosto, e recreio de mãos dadas. Era o menino mais inteligente da classe. Aquele por quem todas as meninas eram apaixonadas.

Também lhe chamou a atenção a recordação escrita por uma das melhores amigas que teve. A menina saiu da escola depois da quarta série. Um texto curto, cheio de adesivos. Letra estranha. A mensagem prometia uma amizade eterna. Até emocionou Aurora Catarina, que ficou pensando na ironia da vida. É preciso ter muita convicção na força de uma amizade, pra comprometer toda a eternidade.

Ela leu mais algumas mensagens. Algumas bonitas, cheias de cores. Outras escritas de má vontade. Outras cheias de erros de ortografia. Mas todas referindo-se ao valor da amizade. Ela fechou o caderno, colocou fora umas poucas coisas que tinha separado e guardou tudo o que não havia checado. Fechou a porta do topo do armário com cuidado. Ela não seria capaz de se desfazer de tanta lembrança. Naquela noite, Aurora colocou o caderno na cabeceira da cama, para lembrar todas as noites a pureza nos versos de criança.

O tempo voa
A gente vê
Pessoas vão.
Mas onde essa gente vai
Aurora não vai não.

3 comentários:

  1. Fiquei arrepiada. Mesmo.
    Muito fofo. Tu tem que fazer um livro.

    êêê... nostalgia!

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  2. eu tenho as minhas agendas
    assinadas e rabiscadas e cheias de confissões
    e cadernos e mais cadernos
    e uma quantidade enorme de tralha no quarto
    tão grande que daria pra fazer um editorial de moda só com o número de chapéus e máscaras e óculos que tenho no meu humilde cômodo
    (ia fazer uma coisa meio lady gaga, mas enfim...)
    mas voltando ao assunto, não consigo me desfazer. dizem que fotos são para quem não consegue se lembrar. eu tenho palavras... sei lá. são mais sinceras e não desbotam com o tempo...

    confio mais nelas =)

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  3. o.O eh preciso sangue frio e força de vontade... hehehe... talvez extrema necessidade ajude! Com o tempo nossa vida vai ficando muito pesada se estiver cheia de coisas..coisas..coisas... prefiro pessoas..pessoas..pessoas... viagens.. viagens.. viagens... e palavras as well.. =)

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