terça-feira, 25 de outubro de 2011

Triste vida da menina


Ela nasceu de manhã.


Lava esse pijama menina
imundo como a tua boneca de chita
com olhos esbugalhados
sorriso irônico bordado
e cabelo de pano emaranhado

Lava esse pijama emaranhado menina
mais sujo que o teu pensamento
que não sossega e não te deixa dormir
decerto te falta sentir
que o rasgo é maior que o remendo

Lava esse pijama remendado menina
todo encardido de infelicidade
de choro abafado por entre os dentes
cariados e carentes de sorrisos
neste rosto tão surrado pelo tempo

Lava esse pijama surrado menina
que já não é mais tão menina.
que já não dorme com a boneca.
que já não sofre de desassossego.
que já não tem mais tantos dentes.


Ela lavou seu pijama de tarde,
à noite já não havia mais menina.

Luciane Trentin, 2008.




Agradecimento especial à Maurice Lazzaretti que guardou esse texto com carinho durante três anos. Caso contrário, eu o teria perdido.


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