Ela nasceu de manhã.
Lava esse pijama menina
imundo como a tua boneca de chita
com olhos esbugalhados
sorriso irônico bordado
e cabelo de pano emaranhado
Lava esse pijama emaranhado menina
mais sujo que o teu pensamento
que não sossega e não te deixa dormir
decerto te falta sentir
que o rasgo é maior que o remendo
Lava esse pijama remendado menina
todo encardido de infelicidade
de choro abafado por entre os dentes
cariados e carentes de sorrisos
neste rosto tão surrado pelo tempo
Lava esse pijama surrado menina
que já não é mais tão menina.
que já não dorme com a boneca.
que já não sofre de desassossego.
que já não tem mais tantos dentes.
Ela lavou seu pijama de tarde,
à noite já não havia mais menina.
Luciane Trentin, 2008.
Agradecimento especial à Maurice Lazzaretti que guardou esse texto com carinho durante três anos. Caso contrário, eu o teria perdido.

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